Nutro uma admiração pela divisão Vintage da Levi’s por que as roupas que fazem realmente parecem as de antigamente. O corte, o tecido e cores escolhidas. Pelo preço, acredito que a construção seja de excelente qualidade, também. Os ensaios da marca sempre me chamaram atenção, porque além das ótimas peças, eles conseguem captar a essência do antigo através de suas fotos. É aquele vintage que convence pela construção, não pelas marcas de desgaste e amarelados meticulosamente calculados, feitas na fábrica de roupas, para dar um ar de coisa antiga.
Esse ensaio em especial me chamou muito a atenção, não só pela temática, mas pelo capricho em retratar um período muito específico na história da música negra norte-americana. De forma precisa, ele capta a atmosfera do que se passou entre os anos de 1968 e 1970 na soul music. Foram os anos que existiram entre a “Era do terno” e a “Era da fantasia extravagante”. Foi o período que antecedeu as grandes calça boca-de-sino, plataformas e cabelos afros gigantesco. Tão caprichado que colocaram até cenas de um dos personagens trabalhando numa fábrica. Vários músicos da soul music trabalhavam como peões em fábricas antes de conseguirem se sustentar só da arte.
Inspirador pra quem vai curtir as fotos ouvindo Otis Redding e imitar o visual depois, porque nada daquilo ali é datado. Estilo sem prazo de validade. Quem curte o antigo e tem bala na agulha pra comprar as peças, como certeza vai fazer um bom negócio.
(A maioria dos sites tem relacionado esse ensaio à Motown Records, o que não acho legal. Apesar de ter sido a mais importante gravadora da época e a mais icônica, onde muita coisa importante surgiu, vale lembrar que ela não era a única grande gravadora da época. Boa parte das mudanças musicais do soul e funk music não surgiram dentro dos estúdios da Motown. Quando falamos desse período histórico da música é importante falarmos da cena em geral, não de empresas.)
Melvin Van Peebles é um diretor de cinema, nascido em 1932. Dirigiu e estrelou o filme “Sweet Sweetback’s Baadasssss Song”, de 1971, seu principal filme, um marco na história do cinema independente. Quebrou todos os recordes de bilheteria e popularidade de um filme independente. O Black Panther Party considerava Sweetback’s uma espécie de filme obrigatório para seus membros. Huey P. Newton dizia que este era um filme verdadeiramente revolucionário, feito por negros e para negros.
Mas eu não sou diretor de cinema. Quero ser como o cara porque, além de um mestre, é um verdadeiro casca-grossa. Um bom cabelo, um bom bigode ou barba. Era bastante musculoso. Tem um ótimo relacionamento com seu filho Mario Van Peebles, também diretor de cinema. Não é um velho tentando ser descolado: ele é o que é e soube envelhecer mantendo o seu estilo. Muitas vezes usa as mesmas peças que usava quando era mais novo, hoje já surradas pelo tempo. Não é difícil ver nas fotos atuais o velho usando a mesma jaqueta biker e a mesma camiseta de moletom “Rated by an all-white jury” em que aparece nas fotos da década de 1970. Os mesmos bonés, também. Não sei dizer precisamente quando foi feita, mas sei que em 1971 o cara já tinha tatuagem no pescoço, algo absolutamente incomum para a época. Compositor. Já velho, seus óculos redondos viraram uma marca característica. Desde o início dos tempos acompanhado por um charuto. Quero ser baadasssss como ele.
Punk antes do punk existir. Eu lembro que descobri essa banda em 2010 através de uma matéria e fiquei em choque. A palavra certa não é “pioneiros”, mas “visionários”: três rapazes fazendo um punk já amadurecido antes do punk existir. Antes dos Ramones, antes de Sex Pistol ou The Clash. Antes de tudo. Não foi só eu quem ficou em choque com a sonoridade desse power trio. Quem ouviu, ficou. Por isso mesmo resolveram produzir um documentário sobre a breve trajetória da banda, que durou apenas 5 anos, de 1971 a 1976 (Fala também sobre sua volta, em 2009). O primeiro álbum do Ramones, grupo que definiu o que seria a sonoridade do punk rock, foi lançado em 1976. Mas, em 1974, o Death já havia atingido uma sonoridade mais amadurecida do que os Ramones conseguiram em 1976. Eles estavam a frente de seu tempo. “…For the Whole World to See”, lançado em 2009, é uma coletânea das canções remanescentes de um álbum gravado em 1974, mas que nunca chegou a ser lançado. O reconhecimento veio tarde, mas veio.
Era para ser uma postagem só sobre o Sam Lambert, já que o estilo do Shaka Maidoh não me agrada muito. Para diferenciar um do outro, a descrição não poderia ser mais óbvia: Sam Lambert é o mais baixo e Shaka Maidoh é o mais alto. Mas uma missão-quase-impossível é encontrar imagens de um sem o outro. Certo, não é pra tanto, mas na maioria dos casos, os dois estão juntos. Quem navega pelos blogs de streetstyle e pelo tumblr, com certeza já se deparou com as fotos dos sujeitos andando pela rua. Nos últimos tempos, eles encabeçaram um projeto chamado ART COMES FIRST, um coletivo de designers que colabora com marcas, faz vídeos e desenvolve seus próprios produtos (Como os chapéus que eles costumam usar).
Em postagens como essa, em que o objetivo é inspirar a quem lê o blog e não falo sobre processos culturais/históricos, eu não tenho muito o quê falar. A regra que uso nessas postagens e sempre repito por aqui: a imagem fala muito mais do que eu conseguiria falar. Na maior parte dos casos, Sam e Shaka estão usando blazers, gravatas e outras peças de alfaiataria, geralmente de uma forma não muito ortodoxa. E eles são bons nisso, mas as fotos que mais me agradam são as em que eles estão usando roupas mais casuais. Uma pena que não existam tantas fotos para ilustrar o que estou dizendo. Apesar de também existir o “fator gosto” envolvido nisso, dou preferência aos visuais mais casuais no blog quando o assunto é inspiração por razões práticas: é a roupa que a maioria das pessoas usam, na maior parte das situações. E eu escrevo pra gente comum. Não escrevo para fashionistas – e, se um dia eu começar a fazer isso, podem mandar me matar – e nem para a elite, seja a elite que for. Até porque, tendo um blog afrocentrado em que as inspirações são negras e levando em consideração que estamos no Brasil, eu não conseguiria fazer isso nem se eu quisesse. Escrevo para caras como eu e meus amigos, que não ocupam grandes cargos em grandes empresas, não tem necessidade e não participam de muitas situações em que seja necessário usar uma variedade de ternos, por exemplo. E também escrevo para quem não tem grana para ter uma variedade de bons blazers, sapatos sensacionais ou outras peças de altíssima qualidade. Apesar de constantemente aparecerem por aqui sapatos e outras peças que estão fora da realidade da maioria, o meu objetivo é que eles sejam vistos como objetos de inspiração, não como os objetos certos para o consumo. Quem tiver dinheiro para comprar um desses, que compre, porque vale a pena. Quem não puder, que seja feliz com um genérico.
Sem exclusões, quero que pessoas de todos os tipos apareçam aqui em busca de inspirações. E espero que encontrem. Não falo especificamente sobre as peças caras ou de alfaiataria, que tanto gosto. A questão é a realidade em que vive a maioria das pessoas. Enquanto os blogs brasileiros de moda masculina com aquela visão fashionista e feminina dizem pra você sair “arrasando” com a tendência legging masculina, eu – além de não recomendar por achar ridículo – tenho noção de que isso só serve pra quem não vive a realidade do cidadão normal. Recomenda uma peça dessas, na mentalidade “use o que você tem vontade de usar”, quem mora em bairro de rico e só anda de carro. Alguém que mora na periferia, pega ônibus e metrô se arriscaria a circular diariamente pelo bairro usando uma legging masculina? Mesmo que quisesse – e por questões estéticas espero realmente que ninguém queira -, é algo fora de cogitação para quem pretende preservar sua integridade mental e física. Keep it real, bredda.
De 2008 a 2010, Nas e Damian Marley se reuniram para gravar as músicas do álbum “Distant Relatives”. Além de um dos álbuns com temas politizados mais relevantes dos últimos tempos, pra mim também é um dos álbuns de rap mais agradáveis de se ouvir que foram lançados nos últimos anos. De forma totalmente afrocêntrica, as músicas falam sobre ancestralidade, maravilhas e problemas do continente negro e a diáspora. E quando uso a palavra “falam”, não me refiro só ao significado das letras, mas da música, do contexto geral dos sons. Falo do conjunto sonoro que se ouve, tudo em um só plano. Aqui, “Patience”, a melhor do álbum, que ganhou um belo videoclipe. Música que eleva.
A Soul Music é uma das manifestações culturais negras mais marcantes do século passado. E continua em alta até hoje, com artistas que fazem um som explicitamente retrô, como Aloe Blacc, ou um som moderno, como Van Hunt. Tem quem pense que é a “música da alma”, mas, na verdade, Soul Music significa literalmente “Música Negra”, já que a expressão “soul” foi uma gíria bem popular para se classificar elementos culturais negros (E até as próprias pessoas negras: soul man, soul brother, soul sister…). Soul Food, por exemplo, é a denominação oficial para se classificar a comida tipicamente negra dos Estados Unidos. A Soul Music se espalhou pelo mundo com rapidez, se tornou muito relevante e chegou a influenciar os rumos que alguns gêneros de outros tomaram. O Brasil é um exemplo disso, apesar da soul music realmente só ter entrado com força por aqui a partir da década de 1970. Levando essa influência em consideração, consigo traçar um paralelo entre o Samba-rock, do Brasil, e o Northern Soul, da Inglaterra. Ambos não são gêneros musicais, ao contrário do que muitos pensam, mas simplesmente formas como os frequentadores dos bailes adaptaram alguns gêneros de dança da negrada norte-americana. A diferença é que nos bailes de Samba-rock tocavam vários gêneros musicais diferentes (Já que essa dança permite isso) e nos bailes Northern Soul rolava somente a Soul Music, mesmo.
O Northern Soul é um movimento cultural que girava em torno da música e da dança surgido no final na década de 1960 no norte da Inglaterra e teve seu auge alcançado ao longo dos anos 1970. Como disse anteriormente, ao contrário do que aparece em muitos lugares por aí, Northern Soul não é um gênero musical ou um subgênero da Soul Music. É apenas um movimento cultural que compreende passos de dança bem específicos, costumes e roupas específicas. O termo foi cunhado pelos próprios ingleses e a música ouvida pelos entusiastas do movimento era a música Soul produzida entre 1964 e 1968, aproximadamente. Mas não valia qualquer uma, já que a dança pedia canções/instrumentais mais rápidas, geralmente sincopadas e agressivas (Principalmente as instrumentais e com vocais masculinos). Restringindo ainda mais suas preferências, os entusiastas gostavam mesmo das músicas mais desconhecidas, obscuras. Por exemplo, a canção “Uptight (Everything’s Alright)”, de 1965, escrita e gravada por Stevie Wonder, se encaixa perfeitamente nas características musicais preferidas desse pessoal, mas nunca foi popular entre eles, provavelmente por ser muito mainstream. Essa afirmação pode causar estranhamento quando vemos que, entre centenas de nomes desconhecidos e irrelevantes pra trajetória da música negra da época, alguns dos clássicos da Northern Soul incluem grupos e artistas consagrados como Tammi Terrell, Sam & Dave, Gladys Knight & The Pips. Muitas eram as músicas de artistas da Motown Records, que naquela época tinha uma veia pop e comercial fortíssima, chegando a ser considerada artisticamente opressora por vários músicos, que acabaram largando a gravadora por conta disso ou negociando o abandono, caso não houvesse uma abertura criativa. Percebemos, então, que essa limitação tem muito mais a ver com a popularidade da canção do que com a popularidade do artista.
A dança inglesa se aproveitava do footwork usado nos passos típicos do modo americano de se dançar o soul e o funk (Herdado diretamente dos passos usados no R&B, quando este ainda não havido se tornado a Soul Music), mas organizado de um modo mais linear e constante, menos aleatório e improvisado. O balanço dos quadris, ombros e cabeça foram drasticamente diminuídos. Enquanto na forma americana de se dançar o soul e o funk os braços tem um papel muito importante, no Northern Soul eles ganham uma função secundária e que se difere bastante do primeiro, nos movimentos. Mas, ao contrário do que pode parecer quando se descreve, a dança não é monótona e menos movimentada. Pelo contrário. Apesar de, quantitativamente, os negros fossem a minoria dos frequentadores, a essência da dança negra dos EUA foi bem mantida. Entre o footwork básico e suas variações, aparecem os stomps e os giros, com os dançarinos girando até 5 vezes em seu próprio eixo numa velocidade impressionante. Os movimentos acrobáticos, que consistem em chutes (De cobertura, frontais, etc), pulos (Abrindo espacate no ar, etc) e movimentos no chão também são muito utilizados. Apesar dos movimentos no chão serem comumente referidos como uma influência do Breakdance, eles já eram amplamente utilizados nos passos do soul e funk da década de 1970 e, bem antes, na década de 1950 no R&B (Inclusive pelos membros dos próprios grupos, para suas performances). Mas, ainda antes disso, já na década de 1930, os passos que exigiam habilidades acrobáticas – inclusive no chão – já eram populares entre a negrada, principalmente quando dançavam o Lindy Hop. Ou seja, o Northern Soul não traz muitas inovações, apenas organiza de forma diferente os elementos já consagrados das danças dos Estados Unidos.
Como surgiu na Inglaterra entre os remanescentes da cultura mod, já admiradores da música negra norte-americana e jamaicana, entre os elementos visuais do início do movimento Northern Soul estavam as camisas button-down e calças retas, que foram sendo deixadas de lado conforme a dança foi se desenvolvendo. Além das típicas camisas e polos da década de 1970, calças oxford bem largas, camisas de boliche e regatas esportivas eram as preferidas por uma questão bem óbvia: praticidade na hora de dançar. Para as mulheres, incluíam-se blusas típicas da época e saias rodada. Nos pés, os sapatos de boliche eram bem populares, também por questões práticas, por conta das solas lisas e conforto. Sapatos de solas modificadas com material escorregadio também eram benvindos na pista de dança de piso de madeira e talco espalhado (Ajudava a escorregar ainda mais). Outro elemento bem característico do movimento é a bolsa holdall esportiva, sendo as da Adidas as mais populares. Elas carregavam os discos comprados nos próprios clubes e os sapatos que eram trocados logo após entrarem nos clubes, afinal, não dava pra andar pela rua usando sapatos escorregadios específicos para dança. Os patches colados nas bolsas e regatas também são ícones visuais desse movimento. O desenho mais famoso tem as inscrições “Northern Soul” e “Keep the faith” e um punho erguido, símbolo de manifestação dos movimentos civis pelo poder negro. Patches dos clubes frequentados, como o Wigan Casino e Blackpool Mecca.
Ao redor do mundo, entusiastas da Soul Music e da dança, continuam deslizando com os passos do Northern Soul. Descrever não vale muito, então fiquem com um vídeo da época em que o movimento alcançou seu auge:
Uma das minhas postagens preferidas e que fez meu blog alcançar um alto número de visitas foi a “1966 em Watts“. Exceto por duas imagens de baixa qualidade que já circulavam pela internet, elas só começaram a aparecer pelos tumblrs e blogs de menswear em geral depois que apareceram por aqui. Ou seja, o Ubora foi o primeiro a desenterrar as imagens do arquivo da Life Magazine e a falar sobre o contexto em que se inseriam essas cenas. Teve até um ou outro blog que já haviam comentado vagamente sobre as fotos disponíveis na época, mas que, posteriormente, complementaram suas postagens com fotos e informações encontradas aqui. Isso me deixa feliz e orgulhoso.
Entre os bons frutos que isso rendeu, o mais interessante foi o ensaio produzido pelo Venture & Virtue, totalmente inspirado nesse evento em Watts. Vejam as fotos neste link: ventureandvirtue.com/gallery/the-dapper-rebels. E, ainda mais interessante que as fotos, foi o vídeo que eles fizeram simulando o que seriam os bastidores das cenas fotografadas. Vale muito a pena. Confiram: