Apego, limite e histórias

Um armário cheio não representa muita coisa. Muitas pessoas tem o guarda-roupa lotado, mas não se vestem bem. Eu tenho a teoria de que temos que ter um limite pra quantidade de roupas que temos. Começando pelo fato de que, na minha opinião, ter uma vasta quantidade de roupas mais atrapalha seu estilo do que ajuda. É necessário vestir a peça algumas vezes para saber como ela funciona e com o quê ela funciona. Por mais que tenhamos centenas de peças, sempre vamos usar mais umas do que outras. Então, essas outras vão ser usadas poucas vezes. Peças que quase nunca escolho, seja lá qual for o motivo, têm caminho certo: pra fora do meu armário. Ou vão pra doação ou troco com algum amigo ou vendo. E faço isso com a maior tranquilidade porque, se não uso, provavelmente não tenho o menor apego a elas.

O apego vem não só pela beleza de determinada peça ou pela quantidade de vezes que usei. É pelos momentos que passei usando, o que fiz pra comprar ou em que situação comprei. Por mais que meu Nike Blazer branco esteja encostado no meu armário de calçados, não pretendo me livrar dele. Foi o primeiro tênis cano alto que comprei, isso há uns bons anos atrás, quando não se achava esse tipo de tênis em qualquer loja do Brasil. Eu procurei em muitos lugares, durante meses. Não só pra achar um modelo que me agradava, mas porque, além de me agradar, tinha que ser inteiro feito em couro sintético. Além das aventuras que passei com ele, foram muitas aventuras que passei para chegar até ele. As marcas deixadas pelo tempo e pelas situações também contam. Pingos de tinta que caíram na jaqueta jeans enquanto você ajudava um amigo a pintar alguma coisa, a marca de cigarro na manga da jaqueta militar daquela madrugada num boteco, aquele ralado no bolso de trás da calça jeans naquela tarde que você tropeçou ou o desgaste natural que só vem com o tempo. Mesmo se aquela roupa que você usou muito não tiver marca nenhuma, as histórias valem mais do que o material usado pra construir a peça. E acho que é por isso que aquela roupa comprada no brechó ou uma que você achou no armário do seu pai tem aquele gosto diferente.

Não há como determinar o número limite de roupas que alguém deve ter. É algo baseado na necessidade, frequência de uso e no amor que se tem por cada peça de roupa. Eu sei que consumir só por consumir não vale a pena. É por isso que hoje não entendo mais os sneakerheads. Eles, de forma geral, ficam super entusiasmados e compram o desejado lançamento, tênis que vira o xodó por um mês, até ser substituído por um outro lançamento. Um acúmulo de tênis que são usados por um mês e depois são usados uma vez a cada 3 anos. Estrelas da música pop norte-americana que nunca são vistas usando as mesmas peças em fotos diferente e tem a coragem de chamar isso de “swag”. Consumir só por consumir nunca é bom. Nem quando o preço vale a pena, porque não costuma valer a pena. “Em algum momento nós fomos convencidos de que não podemos comprar uma coisa boa e cara, mas podemos comprar um monte de coisa descartável e barata“, que muitas vezes não tem a menor utilidade prática. Mesmo que quase todas tenham sido produzidas em larga escala e não tenham características únicas, acredito que devemos estabelecer uma relação com cada uma de nossas peças de roupa, para que elas sejam únicas – pelo menos dentro do nosso armário.

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3 comentários sobre “Apego, limite e histórias

  1. Excelente postagem. Me fez refletir sobre meus hábitos de consumo também. Gostei muito dessa frase: “Em algum momento nós fomos convencidos de que não podemos comprar uma coisa boa e cara, mas podemos comprar um monte de coisa descartável e barata”. Estou tentando usar isso como meu novo lema no que refere à praticamente tudo que eu vá comprar, priorizar qualidade sobre a quantidade … Não é muito fácil, afinal de contas, parece que vivemos em um mundo descartável hoje em dia.

    • É bem difícil, mesmo, principalmente aqui no Brasil. Ainda mais que as coisas boas costumam ser bem caras e, as vezes, fora do alcance das pessoas comuns. Quando não rola a grana pra comprar algo muito bom, serve o pensamento de que não vale a pena comprar algo que vamos usar raramente. Se for pra usar de vez em nunca, melhor não comprar.

      Abraço, Leandro!

      • Bem legal o texto,legal sobre o modo da importancia que vc passa sobre cada peça,mas nao acho que os sneakersheads só pensam no proximo lançamento !
        Eu pessoalmente sou bastante focado em qual proximo tenis quero ter,lógico que seu pudesse tenis muitos releases… mas enfim bacana sua posição !

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