Jazz Dance, UK Jazz Dance e o Passinho do Funk Carioca

uk jazzA curiosidade, ao assistir videoclipe de “Free Nelson Mandela” do The Specials, brotou inevitavelmente. Um grupo de caras dançando ao som afro-caribenho de forma totalmente diferente do que eu já tinha visto antes. Primeiramente pensei que fosse uma dança jamaicana, já que o clipe se passa na Inglaterra e o som da banda ser reggae/ska, mas logo vi que não. Fui atrás e vi apenas uma pessoa, em um fórum, chamando aquilo de “bop”. Deduzi que fosse algo relacionado ao jazz e foi tiro certo. Se tratava do UK Jazz Dance, um estilo de dança surgido na Inglaterra no final da década de 1970, que revivia o antigo jeito de se dançar jazz. De forma improvisada e num contexto moderno, como era o breakdance. Haviam várias crews, que competiam e dançavam juntas, pela ruas e clubes das cidades. O bebop, o swing, jazz funk e fusion em geral (Incluindo fusões com o samba) rolavam nos toca-discos junto com a disco e soul music da época e eram a trilha sonora dos garotos. Os passos eram os mesmos que os americanos fizeram na década de 1920 à década de 1950, mas organizados de forma diferente. Em 2006, Esperanza Spalding deu uma declaração dizendo que queria recuperar a relevância do jazz nas ruas e pra juventude negra na diáspora, pois em sua raíz o jazz é música para dançar e extremamente cotidiana, embora tenha sido cooptado por gente que busca a sua elitização. Embora não tenha relação direta e tenha sido dada 20 anos após o auge do UK Jazz Dance, a declaração muito pertinente e tem tudo a ver com esse fenômeno.

O grupo que dança no videoclipe acima é o IDJ (I Dance Jazz), um dos melhores e mais conhecidos grupos da época, ao lado do Brothers In Jazz. O visual dos grupos variava entre algo contemporâneo da época (Como no vídeo acima) e ternos ao estilo da década de 1940 e 1950, principalmente os zoot suits, na maior elegância. A apresentação do vídeo abaixo dos Brothers In Jazz num programa de TV ilustra bem a diferença:

Apesar desse estilo de dança não ter muito espaço nos dias de hoje, alguns campeonatos e festas continuam acontecendo pelo Reino Unido. Em alguns lugares da Ásia, como Japão e Coréia, várias crews se dedicam às competições e apresentações de UK Jazz Dance. Esse vídeo do coletivo LETZDANCE é muito bom de se apreciar (E útil, para quem quiser aprender):

Os estilos do jazz das décadas passadas foram a base para o que era dançado no rock n’ roll (Lembrando sempre que o rock n’ roll como música e como dança são criações afro-americanas, se tratando apenas de um subgênero do R&B antigo), soul music, funk e, posteriormente, na break. De 5 anos pra cá, uma dança surgida no Rio de Janeiro dominou o cenário do funk carioca. O famoso “passinho”, que surgiu diretamente da forma como se movimentavam os pés nos bailes black da década de 1970 e 1980, aqui no Brasil. Essa forma de dançar veio do jazz. Observando os vídeos de passinho, que eu aprecio bastante, percebi que praticamente todos os passos usados inicialmente pareciam vindos diretamente da primeira metade do século passada, usando poucas das inovações criadas nas eras do soul, funk e break. Posteriormente outros elementos, como o robot – a famosa “dança do robô” – surgido no soul e popularizado no breakdance, foram incorporados. Mas a base do passinho continuou a mesma.

O passinho do funk é a forma brasileira e moderna da dança jazz, mais especificamente do estilo charleston. E por que isso seria pretensão falar isso? As duas expressões surgiram de um povo com a mesma origem e em contextos semelhantes. Os que tentam elitizar a cultura popular antiga e menosprezar as formas modernas de expressão surgidas na periferia terão de engolir isso a seco. A música negra na diáspora sempre se comunicou de forma intensa, mesmo que o contato fosse pouco ou nenhum. As coincidências ocorridas nas expressões musicais negras em todo o continente americano mostram isso. Na dança e outras formas de expressão não poderia ser diferente. As semelhanças musicais entre o choro e o jazz. As semelhanças entre a forma de se dançar o samba e o sapateado norte-americano. Tudo veio de uma matriz, mesmo que misturado entre centenas de culturas africanas diferentes umas das outras. É improvável que os primeiros garotos cariocas a desenvolverem o passinho tenham tido contato direto com os estilos de dança do jazz, levando em consideração que isso não passa nem perto de ser popular no Brasil. Sendo uma dança surgida na favela, colocada à margem de tudo, a possibilidade de algum contato se torna ainda mais improvável. Mesmo que as influências para o passinho tenham bebido de outros gêneros, o resultado final é esse puro jazz que vemos. A comunicação aconteceu.

Essa frase virou um clichê meu: as imagens mostram muito mais do que eu poderia explicar. Al & Leon, duo norte-americano de jazz que começou na década de 1930, se apresentando em um programa de TV (Já na década de 1950) dançando o estilo charleston. Não sei se irmãos ou pai e filho, o que sei é que um é a cara do outro.

As pernas de James Brown

James Brown usava algumas das calças mais apertadas da década de 1960. Em suas apresentações de meados da década de 1960, quando se apresentava ao lado do trio The Famous Flames (Que o apoiava nos vocais), o contraste das calças de James e dos integrantes do grupo era gritante. Mais apertadas e um pouco mais curtas. O porquê eu percebi um tempo depois: os passos alucinados e ultra-velozes do mestre precisavam impressionar e aparecer claramente. Nada melhor do que calças que acompanhavam melhor a silhueta da perna. No geral, as roupas de James Brown durante esse período eram mais ajustadas do que a média dos homens da época, mesmo comparado a outros artistas.

O quê isso tem a ver com a postagem? Pouca coisa. A verdade é que eu estava sem idéias e queria compartilhar isso. Mas talvez tenha a ver com a próxima postagem. Vamos ver. E eu queria, também, compartilhar algumas das imagens sensacionais e inspiradoras da década de 1960 e 1970. É isso.

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E essa pretada toda de preto?

O problema de não acompanhar nada do que acontece na música pop dos dias de hoje é que, sempre que aparece algo que chama a minha atenção, eu fico perdidinho. Um tiozinho tentando entender as modas e motivos da juventude. Não é novidade que a música é o que costuma puxar vários componentes do que forma a cultura urbana e, sem acompanhar a música, é bem provável que você também não acompanhe os últimos acontecimentos estéticos da cultura urbana. Eu já tinha reparado no estilo do A$ap Rocky e, inclusive, achado o sujeito bem estiloso. Parte da minha cabeça ignorou e só agora caí na real de que tem uma negrada lá fora vestindo exatamente o que o cara veste. Veja bem, eu não sei quem lançou essa moda, mas o que vi me faz acreditar que tudo se cristalizou na figura do A$ap Rocky. O Kanye West também é outro que sempre vejo nessa picadilha. Eu sei que quem lançou oficialmente o tal “all black everything” foi o Jay-Z. Mas 10 anos antes deles todos, Edi Rock dos Racionais Mc’s lançou a máxima “eu visto preto por dentro e por fora”. Nada a ver com o que está acontecendo mas garanto que se ele fosse norte-americano essa seria uma das frases mais usadas por aí na hora de caracterizar o estilo.

É quase tudo preto. Um pouco de cinza ou branco. Camisetas, moletons ou suéteres bem compridos, sempre mais compridas que as jaquetas usadas. Jaquetas biker, MA-1, parkas, hoodies abertos, bombers. Bandanas paisley usadas como “saia” (Esticadas à frente ou atrás da calça) ou na cabeça mesmo. Calças jeans pretas, ou até leggings, por baixo de shorts largos. Camisetas com estampas coloridas, estampas paisley (Como se fossem as próprias bandanas), letras brancas garrafais. Bonés e toucas. Óculos escuros. Couro, nylon. Calças jeans, quando azuis ou cinzas, geralmente são aquelas milimetricamente surradas. Os calçados são os mesmos retrôs de sempre (Reeboks, Jordans, AF1 etc). Jóias douradas. Vi muitas peças das marcas Pyrex e Been Trill.

Eu ainda tô tentando entender o que tá acontecendo. Shaka e Sam, apesar do estilo diferente e com aspecto mais clássico, também usam muito o preto e parecem olhar pra essa nova moda para recolher algumas inspirações. Mas sabe que tô achando esse estilo bem interessante? Não é muito “realista” e não tem o menor potencial para se tornar um estilo duradouro (Tem prazo de validade e parece ser curto), mas tenho o pressentimento que esse fenômeno vai deixar uma marca forte na história da estética negra. Capaz até que algumas peças/maneira de usar as peças se tornem futuros clássicos. Mas isso só o tempo vai confirmar.

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Os bikers negros

As fotos de motociclistas negros me intrigavam por eu não ter a menor simpatia por essa cultura e seus membros. O contato que tive foi o suficiente pra perceber que essa cultura é cercada por homofobia, racismo, machismo e outras coisas que abomino. Obviamente não estou generalizando, já que a própria postagem mostra um lado diferente dentro da história dos motoclubes. Os primeiros aglomerados organizados surgiram no final da década de 1950 e início da década de 1960. O East Bay Dragons, formado em 1959 por Tobie Gene Livingston e composto inteiramente por bikers negros, foi um dos primeiros. Em 1959 também era formado o Chosen Few, racialmente misturado, formado por negros, nativo-americanos, brancos, asiáticos etc. Mas o início disso tudo remete à Segunda Guerra Mundial. Logo após o fim da guerra, os pilotos que formavam os Tuskegee Airmen (Primeira equipe de aviadores negros do exército dos EUA) começaram a se interessar por motocicletas pois eram elas que proporcionavam a sensação mais próxima à de pilotar um avião.

Foto que representa o início de tudo: pilotos que faziam parte dos Tuskegee Airmen e uma moto.

Foto que representa o início de tudo: pilotos que faziam parte dos Tuskegee Airmen e uma moto.

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Durante a década de 1960, no auge dos movimentos dos direitos civis, os motoclubes apareceram não só representando a integração mas também como uma espécie de contraponto aos clubes exclusivamente brancos. Os bikers negros, obviamente, tinham idéias progressistas, se aproximavam do Black Panther Party e de outras organizações negras.

Kathleen Cleaver, importante membro do Black Panther Party, sentada no banco do carona. O biker está usando buttons da organização. Um com a escrita "Free Huey" e outro com a foto do próprio Huey P. Newton, membro fundador do Black Panther Party.

Kathleen Cleaver, importante membro do Black Panther Party, sentada no banco do carona. O membro dos East Bay Dragons está usando buttons da organização. Um com a escrita “Free Huey” e outro com a foto do próprio Huey P. Newton, membro fundador do Black Panther Party.

Na estética não se diferenciavam muitos dos outros grupos, já que, apesar da estética incomum, as peças entravam na cultura por sua função utilitária, não só pela estética. Jaquetas biker e bombers de couro (Ambas utilizadas durante a Segunda Guerra Mundial), calças jeans, botas e coletes. Patches de identificação de cada grupo bordados nas peças também era obrigatórios. Essa estética teve influência fortíssima dentro das subculturas urbanas, conseguindo se perpetuar até hoje. Nas fotos do final da década de 1960 e da década de 1970 inteira é possível identificar a mistura das roupas clássicas dos bikers com algumas peças típicas da cultura negra, como os bonés newsboy, toucas de crochê, camisas paisley etc.

Foto de 1951.

Foto de 1951.

Esses motoclubes permanecem firmes até hoje. A trajetória dos bikers negros através dos anos foi contada no livro “Soul on Bikes” (Lembrando que o termo “Soul”, o mesmo da Soul music, é usado para falar daa cultura negra e pessoas negras). “Biker Boyz”, um filme bem popular e que foi exibido diversas vezes em canais abertos daqui do Brasil retratam de forma interessante os negros dentro da cultura dos motociclistas, apesar de não representar um ponto de vista histórico, sendo apenas uma história que tem como pano de fundo a cena californiana desses membros de clubes/gangues.

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A foto que mais gosto. De uma edição da LIFE Magazine, tirada em 1971.

A foto que mais gosto. De uma edição da LIFE Magazine, tirada em 1971.

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Fred Perry: The Twisted Wheel

Algum tempo depois de eu ter escrito aquela postagem sobre Northern Soul, a Fred Perry, uma das minhas marcas preferidas, lançou uma coleção inspirada na cena. Como tudo o que a Fred Perry lança, a qualidade é impecável, mantendo sempre suas características inconfundíveis. Como descrevo na postagem, não só as bolsas de boliche e newsboy, mas algumas camisas também são cheias de patches bordados, como as roupas do pessoal que frequentava os bailes para dançar um soul frenético. Os patches são versões dos clássicos, mas a mancada fica no exagero da marca ao escrever “Fred Perry” em vários deles. Uma das coisas mais interessantes e ao mesmo tempo mais frustantes é a jaqueta harrington da coleção. Apesar do acerto em produzir o forro diferenciado com rosas estampadas (Um dos símbolos clássicos da Northern Soul), ao invés do clássico xadrez tartan, acho que erraram em fazê-la aos moldes de suas jaquetas atuais. Apesar de nem todos os modelos de harrington terem o forro xadrez tartan, uma de suas características mais marcantes é o forro aparecendo quando se usa a jaqueta aberta ou semi-aberta. No caso da jaqueta “The Twisted Wheel”, o forro é diferenciado, mas acaba antes de chegar no zíper, fazendo com que as rosas não apareçam quando se usa a jaqueta aberta ou semi-aberta. Poderiam ter eito uma exceção na produção dessa. Digo o mesmo do sapato loafer (Nas cores preta e marrom) com sola de tênis, que provavelmente é muito confortável para dançar mas não faz jus aos visuais mais elegantes – pra quem gosta de se vestir “na estica” – que um loafer sugere. A maioria das fusões de sapato com tênis não dão certo, mas isso se amenizaria se a sola fosse preta ao invés de branca. Apesar do conceito, a construção do cabedal é ótima e a idéia do pin anexado à parte de trás do sapato (E também dos tênis) foi excelente. Além dessas peças, ainda tem uma camisa e uma camiseta. Mas a minha preferida nisso tudo é o colete que, no lado esquerdo do peito, tem um patch com o símbolo da marca, substituindo o bordado simples da coroa de louro que veríamos normalmente.

Acompanhando o capricho das roupas, no site você tem acesso à uma playlist de soul com músicas escolhidas a dedo pelo DJ Eddie Piller. Curtam:

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SAMO: new shit

Essa semana recebi em casa um pacote da SAMO, da promoção de lançamento da nova coleção. Além de uma carta bonita, ganhei uma camiseta da marca. Engraçado como são as coisas: sou mais de camisas e, quando uso camisetas, na maior parte das vezes elas são totalmente brancas e ajustadas ao corpo. A que recebi é o oposto: preta, estampada e um número maior do que costumo usar. Mas eu sigo fielmente a máxima “calçado só funciona no pé”, que criei há alguns anos, quando comecei a me preocupar com roupas e tênis. Teoricamente não era pra dar muito certo, mas roupa é uma parada prática. Me surpreendi, pois não é o tipo de camiseta que eu imaginaria comprar. O resultado foi ótimo. Coincidentemente, o tipo/cores da estampa e do tecido são iguais as de uma camiseta que tenho cujo tema é uma obra de Jean-Michel Basquiat feita em homenagem ao músico Charlie Parker. Quem conhece o pintor logo percebe a referência no nome da marca, que se inspira não só em suas obras mas também na figura de Basquiat.

Para mim, essa foi a coleção mais interessante da SAMO, não só pela estética, mas porque as criadoras se mantiveram firmes numa identidade (Algo raro entre as marcas nacionais). E diferente das marcas “afro-convenientes” que fazem coleções inspiradas pelas culturas negras mas não querem vincular seus produtos às pessoas negras, a SAMO tem um negro como modelo oficial. É até difícil dar adjetivos à coleção por que as peças são básicas mas não são clássicas, são diferentes mas não apelam pra modernidade. No geral, o clima é retrô, mas pela essência, não por serem peças características das décadas passadas. É o que chamei de “identidade”, algumas linhas acima. No site da marca você encontra informações e outras peças da nova coleção: usesamo.com.

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Bone Thugs-n-Harmony – Thuggish Ruggish Bone

O primeiro CD que comprei na vida foi o “Dinamite 15 anos”, em 1995. Era um CD brasileiro, com várias músicas que estouraram nas quebradas de São Paulo e reunia sucessos do rap e do ragga. Se fosse um vinil, acho que eu teria furado de tanto ter ouvido. Minha música preferida do CD inteiro era “1st of tha Month”. Na época da compra eu ainda não sabia ler. Quando aprendi a ler, no ano seguinte, a coisa não mudou muito, já que eu não sabia como se pronunciava o nome da música. E nem o nome do grupo, Bone Thugs-n-Harmony, que era especialmente complicado. Quando eu entrava no Opala azul filmado (Apelidado “Animal”) que pertencia ao pai, esse CD rodava o tempo todo. Era o clima da época, e eu me sentia um malandro. Ainda mais estando dentro de um Opala filmado. Nessa época todo mundo da periferia conhecia o valor simbólico desse carro e pagava um pau.

Krayzie, Flesh, Wish, Bizzy e Layzie escreveram seu nome da história do rap, isso é fato, mas acho que o grupo não é lembrado como deveria. Na década de 1990 os caras estouraram, mas não conseguiram manter o sucesso nas duas décadas seguinte. Talvez por terem mantido o estilo gangsta antigo, que não mais agradava tanto o público. Talvez por terem se mantido gangstas e arrumado confusões com armas, drogas e prisões o tempo todo. Talvez por outros fatores ou talvez pela soma de todos os fatores. Mas o que importante é o seguinte: eles escreveram o nome do grupo na história do rap não só por terem feito sucesso, mas por serem um grupo completamente diferenciado de todos os que vieram antes e de todos os que vieram depois. Os melhores são os mais copiados, mas eles não eram melhores. Eram os diferenciados, ninguém soava igual. É possível ter influência direta de alguns dos melhores, como Tupac, Biggie, Nas ou Rakim. Mas é impossível pra um grupo de rap ter influências diretas do Bone Thugs-n-Harmony, porque tudo o que apareceu nessa linha soou como uma cópia.

O rap é um gênero caracterizado pelo não-canto. Por isso é errado se referir a um rapper como “cantor de rap”. Porque o que caracteriza o rap é a fala ritmada ao invés de canto. No Brasil, logo que o gênero apareceu, a rapaziada chamava o rap de “funk falado”. Mas não basta apenas falar, é necessário fazer isso de uma forma ritmicamente musical. O Bone Thugs-n-Harmony conseguiu encontrar um meio-termo entre o canto e a fala e organizar isso de uma forma belíssima. Uma espécie de Doo-Wop falado. Um pequeno coral de igreja protestante negra, mas na versão gangsta. E, por falar em gangsta, o clipe de “Thuggish Ruggish Bone” tem tudo o que caracteriza o estilo da época: camisas xadrez, bonés snapback, óculos Locs, perdido na polícia, bandanas, regatas brancas. Os cabelos variam entre afros soltos, tranças cornrows, tranças soltas e os penteados que as mulheres mais velhas faziam nos cabelos crespos de nossas irmãs e primas, mas usados por homens. Ah, tem essa também! Bone é o grupo de rap com a maior variação de penteados da história do rap. Ô anos 90 que não voltam nunca mais…