E essa pretada toda de preto?

O problema de não acompanhar nada do que acontece na música pop dos dias de hoje é que, sempre que aparece algo que chama a minha atenção, eu fico perdidinho. Um tiozinho tentando entender as modas e motivos da juventude. Não é novidade que a música é o que costuma puxar vários componentes do que forma a cultura urbana e, sem acompanhar a música, é bem provável que você também não acompanhe os últimos acontecimentos estéticos da cultura urbana. Eu já tinha reparado no estilo do A$ap Rocky e, inclusive, achado o sujeito bem estiloso. Parte da minha cabeça ignorou e só agora caí na real de que tem uma negrada lá fora vestindo exatamente o que o cara veste. Veja bem, eu não sei quem lançou essa moda, mas o que vi me faz acreditar que tudo se cristalizou na figura do A$ap Rocky. O Kanye West também é outro que sempre vejo nessa picadilha. Eu sei que quem lançou oficialmente o tal “all black everything” foi o Jay-Z. Mas 10 anos antes deles todos, Edi Rock dos Racionais Mc’s lançou a máxima “eu visto preto por dentro e por fora”. Nada a ver com o que está acontecendo mas garanto que se ele fosse norte-americano essa seria uma das frases mais usadas por aí na hora de caracterizar o estilo.

É quase tudo preto. Um pouco de cinza ou branco. Camisetas, moletons ou suéteres bem compridos, sempre mais compridas que as jaquetas usadas. Jaquetas biker, MA-1, parkas, hoodies abertos, bombers. Bandanas paisley usadas como “saia” (Esticadas à frente ou atrás da calça) ou na cabeça mesmo. Calças jeans pretas, ou até leggings, por baixo de shorts largos. Camisetas com estampas coloridas, estampas paisley (Como se fossem as próprias bandanas), letras brancas garrafais. Bonés e toucas. Óculos escuros. Couro, nylon. Calças jeans, quando azuis ou cinzas, geralmente são aquelas milimetricamente surradas. Os calçados são os mesmos retrôs de sempre (Reeboks, Jordans, AF1 etc). Jóias douradas. Vi muitas peças das marcas Pyrex e Been Trill.

Eu ainda tô tentando entender o que tá acontecendo. Shaka e Sam, apesar do estilo diferente e com aspecto mais clássico, também usam muito o preto e parecem olhar pra essa nova moda para recolher algumas inspirações. Mas sabe que tô achando esse estilo bem interessante? Não é muito “realista” e não tem o menor potencial para se tornar um estilo duradouro (Tem prazo de validade e parece ser curto), mas tenho o pressentimento que esse fenômeno vai deixar uma marca forte na história da estética negra. Capaz até que algumas peças/maneira de usar as peças se tornem futuros clássicos. Mas isso só o tempo vai confirmar.

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Os bikers negros

As fotos de motociclistas negros me intrigavam por eu não ter a menor simpatia por essa cultura e seus membros. O contato que tive foi o suficiente pra perceber que essa cultura é cercada por homofobia, racismo, machismo e outras coisas que abomino. Obviamente não estou generalizando, já que a própria postagem mostra um lado diferente dentro da história dos motoclubes. Os primeiros aglomerados organizados surgiram no final da década de 1950 e início da década de 1960. O East Bay Dragons, formado em 1959 por Tobie Gene Livingston e composto inteiramente por bikers negros, foi um dos primeiros. Em 1959 também era formado o Chosen Few, racialmente misturado, formado por negros, nativo-americanos, brancos, asiáticos etc. Mas o início disso tudo remete à Segunda Guerra Mundial. Logo após o fim da guerra, os pilotos que formavam os Tuskegee Airmen (Primeira equipe de aviadores negros do exército dos EUA) começaram a se interessar por motocicletas pois eram elas que proporcionavam a sensação mais próxima à de pilotar um avião.

Foto que representa o início de tudo: pilotos que faziam parte dos Tuskegee Airmen e uma moto.

Foto que representa o início de tudo: pilotos que faziam parte dos Tuskegee Airmen e uma moto.

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Durante a década de 1960, no auge dos movimentos dos direitos civis, os motoclubes apareceram não só representando a integração mas também como uma espécie de contraponto aos clubes exclusivamente brancos. Os bikers negros, obviamente, tinham idéias progressistas, se aproximavam do Black Panther Party e de outras organizações negras.

Kathleen Cleaver, importante membro do Black Panther Party, sentada no banco do carona. O biker está usando buttons da organização. Um com a escrita "Free Huey" e outro com a foto do próprio Huey P. Newton, membro fundador do Black Panther Party.

Kathleen Cleaver, importante membro do Black Panther Party, sentada no banco do carona. O membro dos East Bay Dragons está usando buttons da organização. Um com a escrita “Free Huey” e outro com a foto do próprio Huey P. Newton, membro fundador do Black Panther Party.

Na estética não se diferenciavam muitos dos outros grupos, já que, apesar da estética incomum, as peças entravam na cultura por sua função utilitária, não só pela estética. Jaquetas biker e bombers de couro (Ambas utilizadas durante a Segunda Guerra Mundial), calças jeans, botas e coletes. Patches de identificação de cada grupo bordados nas peças também era obrigatórios. Essa estética teve influência fortíssima dentro das subculturas urbanas, conseguindo se perpetuar até hoje. Nas fotos do final da década de 1960 e da década de 1970 inteira é possível identificar a mistura das roupas clássicas dos bikers com algumas peças típicas da cultura negra, como os bonés newsboy, toucas de crochê, camisas paisley etc.

Foto de 1951.

Foto de 1951.

Esses motoclubes permanecem firmes até hoje. A trajetória dos bikers negros através dos anos foi contada no livro “Soul on Bikes” (Lembrando que o termo “Soul”, o mesmo da Soul music, é usado para falar daa cultura negra e pessoas negras). “Biker Boyz”, um filme bem popular e que foi exibido diversas vezes em canais abertos daqui do Brasil retratam de forma interessante os negros dentro da cultura dos motociclistas, apesar de não representar um ponto de vista histórico, sendo apenas uma história que tem como pano de fundo a cena californiana desses membros de clubes/gangues.

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A foto que mais gosto. De uma edição da LIFE Magazine, tirada em 1971.

A foto que mais gosto. De uma edição da LIFE Magazine, tirada em 1971.

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Fred Perry: The Twisted Wheel

Algum tempo depois de eu ter escrito aquela postagem sobre Northern Soul, a Fred Perry, uma das minhas marcas preferidas, lançou uma coleção inspirada na cena. Como tudo o que a Fred Perry lança, a qualidade é impecável, mantendo sempre suas características inconfundíveis. Como descrevo na postagem, não só as bolsas de boliche e newsboy, mas algumas camisas também são cheias de patches bordados, como as roupas do pessoal que frequentava os bailes para dançar um soul frenético. Os patches são versões dos clássicos, mas a mancada fica no exagero da marca ao escrever “Fred Perry” em vários deles. Uma das coisas mais interessantes e ao mesmo tempo mais frustantes é a jaqueta harrington da coleção. Apesar do acerto em produzir o forro diferenciado com rosas estampadas (Um dos símbolos clássicos da Northern Soul), ao invés do clássico xadrez tartan, acho que erraram em fazê-la aos moldes de suas jaquetas atuais. Apesar de nem todos os modelos de harrington terem o forro xadrez tartan, uma de suas características mais marcantes é o forro aparecendo quando se usa a jaqueta aberta ou semi-aberta. No caso da jaqueta “The Twisted Wheel”, o forro é diferenciado, mas acaba antes de chegar no zíper, fazendo com que as rosas não apareçam quando se usa a jaqueta aberta ou semi-aberta. Poderiam ter eito uma exceção na produção dessa. Digo o mesmo do sapato loafer (Nas cores preta e marrom) com sola de tênis, que provavelmente é muito confortável para dançar mas não faz jus aos visuais mais elegantes – pra quem gosta de se vestir “na estica” – que um loafer sugere. A maioria das fusões de sapato com tênis não dão certo, mas isso se amenizaria se a sola fosse preta ao invés de branca. Apesar do conceito, a construção do cabedal é ótima e a idéia do pin anexado à parte de trás do sapato (E também dos tênis) foi excelente. Além dessas peças, ainda tem uma camisa e uma camiseta. Mas a minha preferida nisso tudo é o colete que, no lado esquerdo do peito, tem um patch com o símbolo da marca, substituindo o bordado simples da coroa de louro que veríamos normalmente.

Acompanhando o capricho das roupas, no site você tem acesso à uma playlist de soul com músicas escolhidas a dedo pelo DJ Eddie Piller. Curtam:

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SAMO: new shit

Essa semana recebi em casa um pacote da SAMO, da promoção de lançamento da nova coleção. Além de uma carta bonita, ganhei uma camiseta da marca. Engraçado como são as coisas: sou mais de camisas e, quando uso camisetas, na maior parte das vezes elas são totalmente brancas e ajustadas ao corpo. A que recebi é o oposto: preta, estampada e um número maior do que costumo usar. Mas eu sigo fielmente a máxima “calçado só funciona no pé”, que criei há alguns anos, quando comecei a me preocupar com roupas e tênis. Teoricamente não era pra dar muito certo, mas roupa é uma parada prática. Me surpreendi, pois não é o tipo de camiseta que eu imaginaria comprar. O resultado foi ótimo. Coincidentemente, o tipo/cores da estampa e do tecido são iguais as de uma camiseta que tenho cujo tema é uma obra de Jean-Michel Basquiat feita em homenagem ao músico Charlie Parker. Quem conhece o pintor logo percebe a referência no nome da marca, que se inspira não só em suas obras mas também na figura de Basquiat.

Para mim, essa foi a coleção mais interessante da SAMO, não só pela estética, mas porque as criadoras se mantiveram firmes numa identidade (Algo raro entre as marcas nacionais). E diferente das marcas “afro-convenientes” que fazem coleções inspiradas pelas culturas negras mas não querem vincular seus produtos às pessoas negras, a SAMO tem um negro como modelo oficial. É até difícil dar adjetivos à coleção por que as peças são básicas mas não são clássicas, são diferentes mas não apelam pra modernidade. No geral, o clima é retrô, mas pela essência, não por serem peças características das décadas passadas. É o que chamei de “identidade”, algumas linhas acima. No site da marca você encontra informações e outras peças da nova coleção: usesamo.com.

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Bone Thugs-n-Harmony – Thuggish Ruggish Bone

O primeiro CD que comprei na vida foi o “Dinamite 15 anos”, em 1995. Era um CD brasileiro, com várias músicas que estouraram nas quebradas de São Paulo e reunia sucessos do rap e do ragga. Se fosse um vinil, acho que eu teria furado de tanto ter ouvido. Minha música preferida do CD inteiro era “1st of tha Month”. Na época da compra eu ainda não sabia ler. Quando aprendi a ler, no ano seguinte, a coisa não mudou muito, já que eu não sabia como se pronunciava o nome da música. E nem o nome do grupo, Bone Thugs-n-Harmony, que era especialmente complicado. Quando eu entrava no Opala azul filmado (Apelidado “Animal”) que pertencia ao pai, esse CD rodava o tempo todo. Era o clima da época, e eu me sentia um malandro. Ainda mais estando dentro de um Opala filmado. Nessa época todo mundo da periferia conhecia o valor simbólico desse carro e pagava um pau.

Krayzie, Flesh, Wish, Bizzy e Layzie escreveram seu nome da história do rap, isso é fato, mas acho que o grupo não é lembrado como deveria. Na década de 1990 os caras estouraram, mas não conseguiram manter o sucesso nas duas décadas seguinte. Talvez por terem mantido o estilo gangsta antigo, que não mais agradava tanto o público. Talvez por terem se mantido gangstas e arrumado confusões com armas, drogas e prisões o tempo todo. Talvez por outros fatores ou talvez pela soma de todos os fatores. Mas o que importante é o seguinte: eles escreveram o nome do grupo na história do rap não só por terem feito sucesso, mas por serem um grupo completamente diferenciado de todos os que vieram antes e de todos os que vieram depois. Os melhores são os mais copiados, mas eles não eram melhores. Eram os diferenciados, ninguém soava igual. É possível ter influência direta de alguns dos melhores, como Tupac, Biggie, Nas ou Rakim. Mas é impossível pra um grupo de rap ter influências diretas do Bone Thugs-n-Harmony, porque tudo o que apareceu nessa linha soou como uma cópia.

O rap é um gênero caracterizado pelo não-canto. Por isso é errado se referir a um rapper como “cantor de rap”. Porque o que caracteriza o rap é a fala ritmada ao invés de canto. No Brasil, logo que o gênero apareceu, a rapaziada chamava o rap de “funk falado”. Mas não basta apenas falar, é necessário fazer isso de uma forma ritmicamente musical. O Bone Thugs-n-Harmony conseguiu encontrar um meio-termo entre o canto e a fala e organizar isso de uma forma belíssima. Uma espécie de Doo-Wop falado. Um pequeno coral de igreja protestante negra, mas na versão gangsta. E, por falar em gangsta, o clipe de “Thuggish Ruggish Bone” tem tudo o que caracteriza o estilo da época: camisas xadrez, bonés snapback, óculos Locs, perdido na polícia, bandanas, regatas brancas. Os cabelos variam entre afros soltos, tranças cornrows, tranças soltas e os penteados que as mulheres mais velhas faziam nos cabelos crespos de nossas irmãs e primas, mas usados por homens. Ah, tem essa também! Bone é o grupo de rap com a maior variação de penteados da história do rap. Ô anos 90 que não voltam nunca mais…

Roupas de performance: retrato visual da música negra norte-americana da década de 1960 aos dias de hoje

Quem visita o Ubora há algum tempo já pode ter se perguntado o porquê de não aparecer muitas referências de estilo de artistas norte-americanos da década de 1960 e 1970 aqui no blog. Preferência não é o motivo, mas sim uma questão mais profundo. Nos EUA sempre existiu a cultura da “roupa de performance”, ou seja, roupas que faziam parte do show, como o cenário ou a iluminação. Isso perdura, afinal, boa parte dos artistas norte-americanos que fazem sucesso atualmente e são considerados ícones do “estilo de rua”, só o são por conta das fotos tiradas por paparazzis enquanto estão andando pela rua ou em outras situações cotidianas. A roupa que certos artistas usam em cima do palco geralmente não serve pra quem não está em cima de um palco. Artistas de outros países, como Jamaica e Inglaterra, que aparecem aqui no blog com frequência, costumam se apresentar nos palcos com roupas que condiziam com seu estilo pessoal. Em alguns casos poderiam até aparecer no palco com visuais mais caprichados ou até mais extravagantes, mas basta observar fotos do cotidiano desses artistas – seja  na rua, gravações no estúdio ou até em ensaios profissionais – para perceber que suas roupas normais não eram muito diferentes (Ou nada diferentes) das roupas que usavam em seus shows.

The Isley Brothers na década de 1960.

The Isley Brothers na década de 1960.

Dentro do universo musical dos EUA, a década de 1960 – assim como a de 1950 – foi basicamente caracterizada pelo uso de ternos e roupas formais. Chuck Berry, BB King ou Sam Cooke. Do blues às primeiras manifestações do funk, esse era o padrão visual. A maioria das exceções estavam no jazz, que já não era mais a música “pop” da época. A ousadia do jazz atravessava as barreiras do som e chegava a outros setores  relacionados à música, como as capas dos discos, por exemplo. Álbuns como “6 pieces of Silver” de Horace Silver, do ano de 1956, trazia o homem com um casaco e meias brancas, lendo uma folha da pauta no banco da praça. Hoje, aquilo pode parecer um traje que beira o formal, mas na época representava algo tremendamente casual, ainda mais levando em consideração o ambiente e a postura de Silver na capa. Mas dentro da música “pop”, os padrões estéticos eram muito mais rigorosos. No início da década de 1960, a gravadora Motown, por exemplo, investia não só em fórmulas musicais que garantissem a popularidade das canções e vendas de álbuns, mas em todos os aspectos possíveis, impondo aos artistas padrões visuais que fossem mais agradáveis ao público. Obviamente, ela não era a única. Entre os grupos musicais, eram um clichê os ternos de corte e cores iguais.

Jimi Hendrix.

Jimi Hendrix.

Em 1966, surge o cara com o visual que viria a se tornar o visual padrão do rockstar: Jimi Hendrix. Com a popularidade atingida em 1967 nos EUA, a música e o visual dos artistas nunca mais foram os mesmos. É difícil colocar uma pessoa só como a grande responsável por uma revolução artística, mas Hendrix realmente foi o pioneiro. O rock teve que evoluir para se adaptar à estética musical criada por ele (Ou então seriam engolidos pelo monstro) e a soul music ganhou novos ares. A fase do psychedelic soul, posterior ao funk de James Brown e anterior ao funk de Sly Stone (O cara que realmente definiu a sonoridade do funk), pode ser resumida de forma básica: a influência de Jimi Hendrix dentro da soul music. Inevitavelmente, essa mudança de mentalidade fez o visual mudar. The Temptations acompanharam tudo isso, se lançaram no soul psicodélico e mudaram a maneira de se apresentar. A partir de 1968, os artistas adotaram visuais mais casuais para suas performances e outras atividades profissionais, mas na entrada da década de 1970, a coisa mudou. Pessoalmente, não me agrada muito a estética dessa década nos EUA e não é a toa que pouca coisa nela serve como inspiração real para se vestir. Estética com prazo de expiração muito curto, difícil de recolher inspirações. Foi nessa época em que surgiram as roupas de performance mais extravagantes. Earth, Wind & Fire, The Isley Brothers, Parliament e outros artistas entraram de cabeça nisso, com aquele visual que parecia uma fantasia. Assistindo ao documentário “Wattstax” ou os vídeos do Soul Train, percebe-se claramente o modo como essa estética convencia o público a montar seus visuais, suas próprias roupas de performance, para curtir os shows ou festas. Curtis Mayfield é um dos poucos artistas norte-americanos da época que representavam a exceção da regra, mantendo no palco um visual casual e bem característico. Interessante reparar também que ele é um dos poucos músicos que usavam óculos de grau em todas as suas performances, algo que não é muito comum dentro desse mundo.

The Jacksons, nome que o grupo adotou após sair da Motown, em 1976 ou 1977.

The Jacksons, nome que o grupo adotou após sair da Motown, em 1976 ou 1977.

Curtis Mayfield, o renegado.

Curtis Mayfield, a exceção.

A era de Michael Jackson e de Prince manteve a tradição. Foi o rap, em meados da década de 1980, quem rompeu com a mentalidade da “roupa de performance”. Podem achar que foi o próprio surgimento do rap, no final da década de 1970, o responsável por esse rompimento, mas a verdade é que os pioneiros do gênero se vestiam de forma tão extravagante e fantasiada quanto qualquer grupo de funk da época. Grandmaster & The Furious Five e Afrika Bambaataa não me deixam mentir. The Sugarhill Gang representavam a exceção, se apresentando muitas vezes com roupas casuais, mas isso não os impedia de usar roupas ao estilo Afrika Bambaataa em certas performances. Ice-T e os membros do Run DMC fizeram parte da primeira geração que realmente deixou de lado as “fantasias” e levaram uma postura mais rueira aos palcos, tanto nas atitudes como no próprio visual. No início da década de 1990, a chegada do gangsta rap levou a atitude rueira extrema – também conhecida pelo vulgo “bandidagem” – aos palcos e aos videoclipes e influenciou toda a música negra ao redor do mundo. É só reparar como se vestiam os artistas de R&B contemporâneo, neo-soul e reggae da época. Roupas e postura tipicamente gangsta, que vinha diretamente das ruas: camisas xadrez, jaquetas MA-1, jeans, botas, tênis etc. Eazy-E, em “Real Muthaphukkin G’s”, passa a música inteira falando mal do Dr. Dre e dedica um verso especial para zoar as roupas que Dr. Dre usava em seu antigo grupo de rap, o World Class Wreckin’ Cru. Obviamente, era um dos grupos de rap da velha escola, que usavam as roupas extravagantes e exclusivamente performáticas. Mas, ao contrário do que pode parecer, o gangsta rap não decretou a morte da roupa de performance. Pelo contrário, fez surgir uma nova onda, mas com outro significado: ostentar e mostrar o quanto estavam fazendo dinheiro com a música. Os estereótipos eram os de mafioso italiano e de Pimp. Surgiram então as performances e fotos de artistas usando ternos e sapatos caríssimos, bengalas enfeitadas com ouro e outras jóias, correntes, anéis, chapéus finíssimos, casacos de pele e outras extravagâncias que custavam alguns milhares de dólares. The Notorious BIG é o exemplo máximo disso. Até The Isley Brothers, atuantes na música desde a década de 1950, entraram nessa onda (O clipe de “What would you do?”, de 2003, mostra bem). Apesar do surgimento dessa nova onda, ela não tomou conta nem dos próprios artistas, que variavam suas performances entre as roupas larguíssimas casuais e os casacos de pele de milhares de dólares.

Biggie no modo rueiro.

Biggie no modo rueiro.

Biggie no modo mafioso endinheirado.

Biggie no modo mafioso endinheirado.

Como disse anteriormente, a mentalidade da roupa de performance perdura dentro da música negra norte-americana, mas é amenizada por artistas que apesar da fama, não fazem parte do jogo das superproduções. Ao contrário de Beyoncé, os membros do Odd Future são vistos com as mesmas roupas dentro e fora dos palcos. Aloe Blacc, com sua elegância e estilo retrô, faz o mesmo. Mas além dos exemplos oposto, existe também um balanceamento: Chris Brown, por exemplo, faz performances em trajes ao estilo Michael Jackson na era Bad, mas também se apresenta ao estilo que usa casualmente.

O coletivo Odd Future.

O coletivo Odd Future.

Levi’s Vintage Clothing (Outono/Inverno 2013)

Nutro uma admiração pela divisão Vintage da Levi’s por que as roupas que fazem realmente parecem as de antigamente. O corte, o tecido e cores escolhidas. Pelo preço, acredito que a construção seja de excelente qualidade, também. Os ensaios da marca sempre me chamaram atenção, porque além das ótimas peças, eles conseguem captar a essência do antigo através de suas fotos. É aquele vintage que convence pela construção, não pelas marcas de desgaste e amarelados meticulosamente calculados, feitas na fábrica de roupas, para dar um ar de coisa antiga.

Esse ensaio em especial me chamou muito a atenção, não só pela temática, mas pelo capricho em retratar um período muito específico na história da música negra norte-americana. De forma precisa, ele capta a atmosfera do que se passou entre os anos de 1968 e 1970 na soul music. Foram os anos que existiram entre a “Era do terno” e a “Era da fantasia extravagante”. Foi o período que antecedeu as grandes calça boca-de-sino, plataformas e cabelos afros gigantesco. Tão caprichado que colocaram até cenas de um dos personagens trabalhando numa fábrica. Vários músicos da soul music trabalhavam como peões em fábricas antes de conseguirem se sustentar só da arte.

Inspirador pra quem vai curtir as fotos ouvindo Otis Redding e imitar o visual depois, porque nada daquilo ali é datado. Estilo sem prazo de validade. Quem curte o antigo e tem bala na agulha pra comprar as peças, como certeza vai fazer um bom negócio.

(A maioria dos sites tem relacionado esse ensaio à Motown Records, o que não acho legal. Apesar de ter sido a mais importante gravadora da época e a mais icônica, onde muita coisa importante surgiu, vale lembrar que ela não era a única grande gravadora da época. Boa parte das mudanças musicais do soul e funk music não surgiram dentro dos estúdios da Motown. Quando falamos desse período histórico da música é importante falarmos da cena em geral, não de empresas.)

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