1966 em Watts

Não há jeito de evitar as influências. O mundo gira e, querendo ou não, somos influenciados por tudo o que acontece ao nosso redor. Nos anos 1990, os jovens negros das favelas do Rio de Janeiro usavam seus bonés snapback com a etiqueta pra fora. Algum tempo depois, os jovens brancos de classe média começaram a fazer o mesmo. Antes de integrarem os Racionais MC’s, Mano Brown e Ice Blue formavam a dupla B.B.Boys e já rimavam: “Anda todo nos artigo / estilo importação / Língua do tênis pra fora / copiando os irmão”. Mas o contrário também acontece. Na postagem sobre o estilo da Ivy League, falo justamente sobre sua grande importância dentro do universo masculino.

A edição de julho de 1966 da LIFE Magazine tem como tema principal o clima pós-tumultos no bairro Watts, localizado em Los Angeles, nos Estados Unidos. Os tumultos começaram quando um policial resolveu prender Marquette Frye, um jovem negro que, segundo ele, estava dirigindo embriagado. Após pedir ajuda de outras unidades, os policiais presentes começaram a usar a violência para prender Marquette. Sua mãe, irmão e vizinhos entraram no meio da confusão. Conforme a confusão aumentava, crescia o número de pessoas assistindo ao espetáculo de violência. Era época de luta intensa pelos direitos civis, a população negra estava cansada da violência e outros abusos cometidos pelos policiais e outras autoridades. A revolta tomou conta do bairro. Os tumultos duraram quatro dias e causaram um prejuízo de mais de 40 milhões de dólares.

Essa edição da revista é recheada de ótimas fotos, armas em punho, coquetéis molotov e crianças em fila, aprendendo sobre o black power. Uma das coisas mais interessante nessas fotos é o estilo dos protagonistas. A forma de se vestir é incomum, mesmo para a época, e revela forte influência do estilo da Ivy League, adaptada à realidade e estilo de vida dos jovens negros de Watts. Os ingleses fizeram algo parecido ao incorporar influências da estética da Ivy League à sua realidade, ajudando a construir a cultura Mod. Alguns músicos de jazz também adotaram o estilo, mas não conseguiram interpretar e adaptar tão bem como essa turma de Watts.

Analisando de forma mais crítica, percebi que essas fotos são verdadeiros diamantes. Em alguns anos de interesse pelo assunto, nunca vi fotos pessoas da época que se vestiam de um jeito parecido. Parece que um momento único foi captado através da câmera do fotógrafo. A forma de combinar as peças estava muito a frente do ano em que as fotos foram tiradas.

Calças que terminam bem acima dos tornozelos, barras dobradas. Chapéus pork pie. Óculos estilo wayfarer e clubmaster. Camisas button-down de xadrez gingham. Camisa de bolinha. Camisa xadrez de flanela. Jaquetas estilo golf. A extraordinária presença de uma jaqueta bomber azul. Blazer e polo de mangas compridas. Chunky cardigan de gola shawl. Cardigan verde e cinza por cima de uma camisa xadrez. Cardigan preto por cima de uma camiseta. Moletom amarelo com estampa do Malcolm X. Calças jeans de barra dobrada. Chinos curtas, de variadas cores.

Nos pés, os derbies pretos dominaram. Mesmo assim, alguns estão usando chukkas e tênis. As meias pretas também dominam, mas um dos caras mais estilosos usa meias vermelhas, algo incomum para a época). Os cabelos iam dos rapados aos hi-tops e topetes das mais variadas formas.

Quem olha algumas dessas fotos poderia até pensar que estes jovens eram da geração de rude boys surgidas após a segunda onda do ska, na Inglaterra, no final da década de 1970. Anos em que as roupas típicas dos rude boys, mods e skinheads se misturavam e ninguém ligava.

Um raro momento que, mesmo tendo sido captado num momento de tensão, nos traz muitas coisas boas. As fotos estão nos tamanhos originais, então, ao clicar, você vai conseguir apreciar os detalhes cada uma delas. O estilo destes jovens de Watts continua relevante e fazendo muito sentido nos dias de hoje.

16 respostas em “1966 em Watts

  1. Grande Jun,

    Ótimo post! A única coisa que eu estou pensando aqui é em que ponto a moda de hoje, sobre o rótulo “vintage”, não está apenas se apropriando de uma estética presente nas classes trabalhadoras dos anos 1950 e 1960. Exemplo bem claro disso é a calça jeans e a camiseta em gola V, que sempre foram símbolos e vestimenta da classe trabalhadora nos EUA. Lembrando que ainda à essa época, a referência no sentido de se vestir bem vinha das classes mais elevadas com o uso de ternos, gravatas, camisas, blazers, calças e sapatos sociais (o estilo Ivy League, que você retrato muito bem em um dos seus posts, é um estilo intermediário entre a vestimenta mais formal das classes altas e essa forma de vestir das classes mais populares). É a partir dos anos 1970 que as ruas passam a inspirar as passarelas. Na verdade, essa galera de Watts vestia da forma como lhes era acessível naquela época (o acesso ao consumo pela população negra, hispânica e pobre em geral eram bem menores do que hoje em dia). Continuamos a conversa numa outra ocasião.

    Grande abraço,

    Márcio/Kibe.

    • Sim. Mas mesmo se vestindo da forma que lhes era acessível, eles se vestiam de forma completamente diferente das pessoas da época. A maioria das peças, isoladamente, não tem nada de mais. Mas a combinação, a forma como usavam, é completamente inusitada e especial. Muito provavelmente, influenciada pelo estilo da Ivy League. Além disso, é possível ver várias características comuns no visual de todos eles, uma unidade visual. Eles se importavam com o estilo e, de fato, formavam uma “crew”, cujo um dos interesses era o visual.

      (Não sei se minha resposta te diz alguma coisa, já que não saquei direito o que você quis dizer nesse comentário! Hahahahaha)

      • Concordo em parte com você, mas meu ponto é: quando digo que o Ivy League é um estilo mais intermediário, penso que foram os jovens universitários que adaptaram a forma de se vestir mais formal das classes mais abastadas com esse jeito despojado das classes populares. Mas enfim, belo post!

      • Ah, agora saquei! No caso da época da Ivy League que falo naquela postagem (Porque a tradição de se vestir de forma diferenciada deles vem desde a década de 50), que é de 63~65, acredito que tenha mais a ver com a mistura do antigo estilo da Ivy League – que já era diferente do usado pelo resto dos homens da época – com as peças esportivas. A maioria deles fazia parte das equipes esportivas da universidade e as peças casuais deles vinham daí (Jaqueta varsity, jaquetas de golf, polos, camisetas de moletom, tênis de basquete e iate). Acho pouco provável que o estilo das pessoas mais pobres tenha influenciado significativamente o estilo dos ivy leaguers.

    • Ótimas fotos Jun. Acho muito provável que eles tenham sido influenciados pela estética da classe rica. Algo parecido com os ‘Lo Heads e Ralph Lauren. É bem comum que as classes menos privilegiadas aspirem se vestir como as classes mais afluentes.

      Quando a estética vintage e a classe trabalhadora, daí vem o rótulo “workwear”. Acho que a crise foi em parte a responsável. A necessidade de um consumo mais consciênte gerou uma reação voltada para um estilo mais clássico, atemporal, menos descartável. E a situação econômica, principalmente a dos EUA, fez com que os consumidores dessem mais valor aos produtos “Made in USA”, com “Heritage”, e tradição.

  2. This is by far the coolest blog EVER! Joshua Kissi mentioned you in a blog post so I decided to check it out! But I was a bit confused because it was in Portuguese. BUT I clicked the translator button and I was able to read your posts. I find it remarkable that fashion is so universal and that you were able to link up to Joshua and Travis while they were in Brazil! Also, I found it so amazing that you are influenced by so many American events and pop icons. Definitely inspires me to get to know more about people of color in Brazil and all over the world! Peace

  3. Pingback: The Past in Style | We reBlog

  4. Pingback: wynter mitchell | Be Inspired On This Fourth

  5. Jun, mano… fudido seu blog, fonte de inspiração mesmo! Valeu cara, seu trabalho é incrível. Você é musico tbm né? Onde dá pra ouvir/ver seu som? Abrax! Tim.

    • Sou músico sim, mas não tenho nada próprio gravado. E vai demorar um pouco, ainda. Pra ser sincero, tô bem parado ultimamente, hahaha. Valeu o apoio, Tim, e continue visitando o blog. Abraço!

  6. Pingback: Watts Photo Essay – LIFE Magazine,1966 | THIN GHOST

  7. Pingback: Venture & Virtue » The Dapper Rebels

  8. Pingback: “The Dapper Rebels” por Venture & Virtue | Ubora

  9. Pingback: Watts em 1966 | La Vida en Fotografía

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s