Roupas de performance: retrato visual da música negra norte-americana da década de 1960 aos dias de hoje

Quem visita o Ubora há algum tempo já pode ter se perguntado o porquê de não aparecer muitas referências de estilo de artistas norte-americanos da década de 1960 e 1970 aqui no blog. Preferência não é o motivo, mas sim uma questão mais profundo. Nos EUA sempre existiu a cultura da “roupa de performance”, ou seja, roupas que faziam parte do show, como o cenário ou a iluminação. Isso perdura, afinal, boa parte dos artistas norte-americanos que fazem sucesso atualmente e são considerados ícones do “estilo de rua”, só o são por conta das fotos tiradas por paparazzis enquanto estão andando pela rua ou em outras situações cotidianas. A roupa que certos artistas usam em cima do palco geralmente não serve pra quem não está em cima de um palco. Artistas de outros países, como Jamaica e Inglaterra, que aparecem aqui no blog com frequência, costumam se apresentar nos palcos com roupas que condiziam com seu estilo pessoal. Em alguns casos poderiam até aparecer no palco com visuais mais caprichados ou até mais extravagantes, mas basta observar fotos do cotidiano desses artistas – seja  na rua, gravações no estúdio ou até em ensaios profissionais – para perceber que suas roupas normais não eram muito diferentes (Ou nada diferentes) das roupas que usavam em seus shows.

The Isley Brothers na década de 1960.

The Isley Brothers na década de 1960.

Dentro do universo musical dos EUA, a década de 1960 – assim como a de 1950 – foi basicamente caracterizada pelo uso de ternos e roupas formais. Chuck Berry, BB King ou Sam Cooke. Do blues às primeiras manifestações do funk, esse era o padrão visual. A maioria das exceções estavam no jazz, que já não era mais a música “pop” da época. A ousadia do jazz atravessava as barreiras do som e chegava a outros setores  relacionados à música, como as capas dos discos, por exemplo. Álbuns como “6 pieces of Silver” de Horace Silver, do ano de 1956, trazia o homem com um casaco e meias brancas, lendo uma folha da pauta no banco da praça. Hoje, aquilo pode parecer um traje que beira o formal, mas na época representava algo tremendamente casual, ainda mais levando em consideração o ambiente e a postura de Silver na capa. Mas dentro da música “pop”, os padrões estéticos eram muito mais rigorosos. No início da década de 1960, a gravadora Motown, por exemplo, investia não só em fórmulas musicais que garantissem a popularidade das canções e vendas de álbuns, mas em todos os aspectos possíveis, impondo aos artistas padrões visuais que fossem mais agradáveis ao público. Obviamente, ela não era a única. Entre os grupos musicais, eram um clichê os ternos de corte e cores iguais.

Jimi Hendrix.

Jimi Hendrix.

Em 1966, surge o cara com o visual que viria a se tornar o visual padrão do rockstar: Jimi Hendrix. Com a popularidade atingida em 1967 nos EUA, a música e o visual dos artistas nunca mais foram os mesmos. É difícil colocar uma pessoa só como a grande responsável por uma revolução artística, mas Hendrix realmente foi o pioneiro. O rock teve que evoluir para se adaptar à estética musical criada por ele (Ou então seriam engolidos pelo monstro) e a soul music ganhou novos ares. A fase do psychedelic soul, posterior ao funk de James Brown e anterior ao funk de Sly Stone (O cara que realmente definiu a sonoridade do funk), pode ser resumida de forma básica: a influência de Jimi Hendrix dentro da soul music. Inevitavelmente, essa mudança de mentalidade fez o visual mudar. The Temptations acompanharam tudo isso, se lançaram no soul psicodélico e mudaram a maneira de se apresentar. A partir de 1968, os artistas adotaram visuais mais casuais para suas performances e outras atividades profissionais, mas na entrada da década de 1970, a coisa mudou. Pessoalmente, não me agrada muito a estética dessa década nos EUA e não é a toa que pouca coisa nela serve como inspiração real para se vestir. Estética com prazo de expiração muito curto, difícil de recolher inspirações. Foi nessa época em que surgiram as roupas de performance mais extravagantes. Earth, Wind & Fire, The Isley Brothers, Parliament e outros artistas entraram de cabeça nisso, com aquele visual que parecia uma fantasia. Assistindo ao documentário “Wattstax” ou os vídeos do Soul Train, percebe-se claramente o modo como essa estética convencia o público a montar seus visuais, suas próprias roupas de performance, para curtir os shows ou festas. Curtis Mayfield é um dos poucos artistas norte-americanos da época que representavam a exceção da regra, mantendo no palco um visual casual e bem característico. Interessante reparar também que ele é um dos poucos músicos que usavam óculos de grau em todas as suas performances, algo que não é muito comum dentro desse mundo.

The Jacksons, nome que o grupo adotou após sair da Motown, em 1976 ou 1977.

The Jacksons, nome que o grupo adotou após sair da Motown, em 1976 ou 1977.

Curtis Mayfield, o renegado.

Curtis Mayfield, a exceção.

A era de Michael Jackson e de Prince manteve a tradição. Foi o rap, em meados da década de 1980, quem rompeu com a mentalidade da “roupa de performance”. Podem achar que foi o próprio surgimento do rap, no final da década de 1970, o responsável por esse rompimento, mas a verdade é que os pioneiros do gênero se vestiam de forma tão extravagante e fantasiada quanto qualquer grupo de funk da época. Grandmaster & The Furious Five e Afrika Bambaataa não me deixam mentir. The Sugarhill Gang representavam a exceção, se apresentando muitas vezes com roupas casuais, mas isso não os impedia de usar roupas ao estilo Afrika Bambaataa em certas performances. Ice-T e os membros do Run DMC fizeram parte da primeira geração que realmente deixou de lado as “fantasias” e levaram uma postura mais rueira aos palcos, tanto nas atitudes como no próprio visual. No início da década de 1990, a chegada do gangsta rap levou a atitude rueira extrema – também conhecida pelo vulgo “bandidagem” – aos palcos e aos videoclipes e influenciou toda a música negra ao redor do mundo. É só reparar como se vestiam os artistas de R&B contemporâneo, neo-soul e reggae da época. Roupas e postura tipicamente gangsta, que vinha diretamente das ruas: camisas xadrez, jaquetas MA-1, jeans, botas, tênis etc. Eazy-E, em “Real Muthaphukkin G’s”, passa a música inteira falando mal do Dr. Dre e dedica um verso especial para zoar as roupas que Dr. Dre usava em seu antigo grupo de rap, o World Class Wreckin’ Cru. Obviamente, era um dos grupos de rap da velha escola, que usavam as roupas extravagantes e exclusivamente performáticas. Mas, ao contrário do que pode parecer, o gangsta rap não decretou a morte da roupa de performance. Pelo contrário, fez surgir uma nova onda, mas com outro significado: ostentar e mostrar o quanto estavam fazendo dinheiro com a música. Os estereótipos eram os de mafioso italiano e de Pimp. Surgiram então as performances e fotos de artistas usando ternos e sapatos caríssimos, bengalas enfeitadas com ouro e outras jóias, correntes, anéis, chapéus finíssimos, casacos de pele e outras extravagâncias que custavam alguns milhares de dólares. The Notorious BIG é o exemplo máximo disso. Até The Isley Brothers, atuantes na música desde a década de 1950, entraram nessa onda (O clipe de “What would you do?”, de 2003, mostra bem). Apesar do surgimento dessa nova onda, ela não tomou conta nem dos próprios artistas, que variavam suas performances entre as roupas larguíssimas casuais e os casacos de pele de milhares de dólares.

Biggie no modo rueiro.

Biggie no modo rueiro.

Biggie no modo mafioso endinheirado.

Biggie no modo mafioso endinheirado.

Como disse anteriormente, a mentalidade da roupa de performance perdura dentro da música negra norte-americana, mas é amenizada por artistas que apesar da fama, não fazem parte do jogo das superproduções. Ao contrário de Beyoncé, os membros do Odd Future são vistos com as mesmas roupas dentro e fora dos palcos. Aloe Blacc, com sua elegância e estilo retrô, faz o mesmo. Mas além dos exemplos oposto, existe também um balanceamento: Chris Brown, por exemplo, faz performances em trajes ao estilo Michael Jackson na era Bad, mas também se apresenta ao estilo que usa casualmente.

O coletivo Odd Future.

O coletivo Odd Future.

2 respostas em “Roupas de performance: retrato visual da música negra norte-americana da década de 1960 aos dias de hoje

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