Estilo negro?

Em novembro e dezembro participei de dois debates relacionados à estética afro-brasileira. O primeiro aconteceu no evento Caldeirão do Negão e o segundo na semana da Feira Preta. Nos dois, pelo pouco tempo disponível não foi possível transformar um encontro num real debate, onde seria discutido o que é o estilo negro e a moda afro-brasileira. Como nos dois eventos não pude expôr a maioria das coisas que penso sobre o assunto, resolvi fazer essa postagem.

Hazel Scott

A interrogação no título da postagem não é a toa. Como seria possível definir um estilo negro se existem tantos? O primeiro erro ao tentar fazer uma análise sobre o assunto está em limitar o que é – ou o quê é entendido como – a estética negra. O blog vai na contramão disso, aliás. Vulgarmente a estética negra é divida em duas partes: as roupas da cultura Hip Hop (Calças largas, tênis de basquete, camisetas largas etc) e o conjunto de roupas entendidos como autenticamente africanos, compostos por batas e turbantes, geralmente feitos de tecidos com padronagens africanas coloridas e peles de animais (Padronagens que muitas vezes não são nem africanas, peles de animais que sequer existem na África, como os tigres). A primeira é apresentada como o lado urbano e moderno, a segunda como tradicional e carregada de sentidos ligados às tradições africanas e afro-brasileiras (Religião, comida etc). É importante frisar que isso não é apenas acaso, mas sim uma face do racismo, a que quer limitar e caracterizar o negro a partir de visões externas (Não as do próprio negro), ignorando a amplitude da cultura negra na diáspora. Vai um trecho de uma entrevista de Mano Brown para a revista Rolling Stone, que acho bem pertinente:

“O rap não pode ser limitante. O negro já tem tantas limitações no Brasil, tantas regras e o rap ainda te põe mais cerca. Não pode isso, não pode aquilo.”

Martha and the vandellas 1966

O paralelo que pode ser feito entre o assunto tratado aqui e a frase de Mano Brown é perfeito. O rap é visto como um gênero limitado em assuntos. Quem foge desses assuntos é visto como “vendido”, como quem “traiu as origens”, que “não fala sobre a realidade” e outras denominações difamatórias. É uma visão tão limitada que ignora a própria trajetória do rap, sempre tratando de temas variados desde o seu início. Quem faz rap com estética e temática dançante também é criticado, visto como alguém alienado aos problemas que cerca a vida do negro e periferia. Argumento muitas vezes justificado com um verso da Facção Central: “Não canto pra maluco rebolar / meu som é pra pensar / pra ladrão raciocinar”. Então ignoremos Afrika Bambaataa, Kurtis Blow. E rejeitemos Marvin Gaye, James Brown, Stevie Wonder, Sam Cooke. Afinal, a música verdadeira e “não-vendida” deve falar sobre um número limitado de temas, sempre contestadores, e não pode ser feita para dançar. Mesmo que haja espaço pra tudo na amplitude da cultura afro-diaspórica e mesmo que a luta das décadas passadas tenham sido embalada por músicas dançantes, a maioria sem temas contestadores. Com a estética é a mesma coisa: é adotada uma visão limitante que ignora uma história cheia de exemplos contrários a essa visão. Exemplos que destroem essas limitações com a maior facilidade.

Esse assunto acaba caindo na discussão sobre o que é a moda afro-brasileira, e a moda afro-brasileira leva àquela famosa discussão sobre a busca da identidade brasileira na moda. Eu considero um assunto chato. Primeiro porque o Brasil é muito grande e diverso pra tentar achar uma ou algumas identidades. Segundo porque as identidades brasileiras estão bem definidas e por aí, pelas pessoas que estão pelas cidades. Qual a necessidade da representação disso nas passarelas para nos certificarmos que essas identidades existem? Qual a necessidade de ter aval dessas autoridades da moda? Autoridades brancas e de classe média, que nunca vão reconhecer que a verdadeira identidade do jovem paulistano – da maioria deles, pelo menos – é construída por jovens pretos e/ou periféricos. E que ela é composta por óculos espelhados da Oakley, camisetas da Ecko e da Ed Hardy, polos listradas, boné de aba-reta e meia na canela. Por calças apertadas da D&G, shorts curtíssimos e tênis de academia. As marcas quase sempre falsificadas. Que perturbam o sossego não só quando vão fazer o famoso rolezinho no shopping (Encarados como arrastão, mesmo se nada for roubado), mas também quando passam de carro e trazem junto uma voz acompanhada por uma percussão africana característica, com o volume no máximo. É a realidade versus a fantasia. Fantasia, obviamente, representada pelo mundo da moda. Não é por acaso que a maioria dos sites de street style de São Paulo se limitam a fotografar transeuntes da Rua Oscar Freire, Rua Augusta (Sempre sentido Pinheiros) e grandes festivais de rock. Para os que não conhecem eu explico: a região citada possui uma grande concentração de marcas de luxo, frequentadas por pessoas ricas e pela classe-média descolada. Não querem enxergar e muito menos exibir o universo que existe além de seu limitado campo de visão. Criam representações limitadas – diria até representações falsas – de um povo, assim como fazem os comerciais de TV.

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Essas pessoas, que estão no comando dos meios de comunicação e grandes empresas, nos vêem de forma caricata e limitada. Em seguida, nos repassam essa imagem, como se fossemos aquilo e apenas aquilo. Combater isso é importante pois não só muda a imagem que os outros têm de nós, mas principalmente a imagem que temos de nós mesmos e dos que são iguais a nós. Depois de repetir a palavra “definição” e suas variantes tantas vezes ao longo do texto, vou compartilhar a definição pessoal que tenho sobre o assunto: estilo negro é tudo o quê o negro usa em seu contexto e atribui um significado. Atribuir um significado não é teorizar sobre suas roupas, mas sim fazer com que elas e a forma como elas são usadas, sejam relevantes em seus dias. Seja a forma como Muddy Waters e Little Richards usavam seus cabelos e ternos, seja como Kathleen Cleaver e Angela Davis usavam seus cabelos e casacos, seja Sly Stone, Peter Tosh, Arlindo Cruz, Laurel Aitken, Nelson Triunfo, Pharrell ou Rihanna. E espero que o Ubora contribua não só como fonte de conhecimento, mas também para ajudar na mudança de imagem que temos sobre nós mesmos.

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11 respostas em “Estilo negro?

  1. Falou tudo camarada. Os limites citados no texto fazem os bolsos de muita gente. Essa viseira dos estígmas do tipo “Rap tem que ser com ódio”, “jazz é dos eruditos” ou que “o erudito não é pra pobre – leia-se negro” afunda a curiosidade pulsante nos guetos e a busca pelo conhecimento da meninada que vem vindo com tudo. Vário amigos meus estão aí vagando na vida sem ler um livro sequer por ano ou assistindo os bigbrother e ainda criticam os que buscam a luz da liberdade… Liberdade é o estilo. Liberdade é a moda. Ser negro é ser livre.

  2. Jun, curti bastante. Posta pouco mas posta conteúdo, e parabéns por não desanimar.

    Eu não sou negro mas me identifiquei demais com o texto. Eu entendo que o “pessoal da moda” e os publicitários façam algumas generalizações, apesar de não concordar. Assim fica mais fácil e mais digerido. Não é só com o negro, mas com qualquer produto e qualquer cultura (seria essa a palavra?). Funciona como um telefone sem fio e quando a palavra chega no ouvido da galera já tem tanto ruído que ela foi totalmente removida do contexto e significado. Daqui a pouco a Westcoast está fazendo uma coleção Steve McQueen. Com certeza ele usou as botas dessa marca workwear que construiu o país.

    Tem horas que acho o Brasil muito radical. Ou é uma coisa ou é outra. Roupa disso, roupa daquilo, rap disso, rap daquilo. Tem que ser A ou B. Parece que nós temos uma dificuldade muito grande de sentar dos dois lados da mesa. Talvez por isso tanta intolerância e roubo.

  3. Vixe Jun! Fez pensar muito! Tava um dia desses pensando justamente isso. Seu texto acaba com qualquer coisa “étnica” que possa aparecer por aí.

  4. Grande Jun,
    Gostei muito do seu texto! Contudo, acho que há vários temas nele que, apesar de inter-relacionados, tem algumas peculiaridades próprias. Concordo que pensar um “estilo negro” é considerar tudo aquilo que o negro veste ou se inspira para vestir. Porém, não há como negar que em tempos de globalização determinados centros produtores/divulgadores de certas tendências tornam-se o “calibre” daquilo que é entendido como bom gosto ou certo/errado em termos de moda. Nesse caso, a maior parte do que consumimos ou usamos como referencial de moda negra passa pelo aval de lugares como Nova York, Londres, Los Angeles e Paris. Ou seja, são o/as negro/as desses contextos geográficos que ditam a moda a ser usada no restante do mundo mesmo que os estilos por eles incorporados tenham se inspirado (de maneira estereotipada ou não) em regiões/cidades/países vistos como periféricos: Brasil, países do continente africano ou do Caribe. Um exemplo clássico disso é o que é feito pelos nossos amigos do Street Etiquette. Não nego o talento e “feeling” dos “brothers” para pensar e articular modos de se vestir. Porém, eles só são um fenômeno na moda atual porque são jovens negros que nasceram e vivem em Nova York. O trabalho que eles fazem de viajar o mundo exibindo ou incorporando novas tendências (negras ou não) só é viável por conta do lugar que ocupam na dinâmica da economia global. Pensar, afirmar e comercializar uma moda “afro-brasileira” esbarra na necessidade de legitimação desses centros. Um exemplo bastante recente de como isso se dá pode ser notado na incorporação de toda uma simbologia afro-brasileira originária das religiões afro em um vídeo do novo álbum de Beyoncé. Minha pergunta é: como romper essa lógica criando um estilo negro local a partir de nossa experiência e sem necessariamente se manter subordinado ou se render a uma moda global negra que nos estereotipa?
    Grande abraço e mantenha os ótimos posts!
    Márcio/Kibe.

    • “Como romper essa lógica criando um estilo negro local a partir de nossa experiência e sem necessariamente se manter subordinado ou se render a uma moda global negra que nos estereotipa?”

      Sendo bastante realista: a essa altura do campeonato eu acho (quase) impossível. Pelo menos aqui no Brasil, que nunca teve uma tradição em estilo, na cultura do se vestir. Aqui se gosta muito de roupas, mas o pensamento em se vestir praticamente não existe. Até o que é importado é uma mera cópia de todas as peças, dificilmente se vê uma variação inteligente dos estilos importados. As vezes rola uma adaptação, a maioria delas por necessidade, mas isso não se desenvolve a ponto de se tornar relevante.

      A própria estética do funk, citada aqui, apesar de ser inconfundível, não é original. E não existe profundidade ou variantes. É mais um amontoado de falsificações de marcas de surfwear (?), tênis caros que estão disponíveis em qualquer loja. Os astros do funk, aliás, estão puxando pra uma estética mais ligado ao rap no naipe Whiz Khalifa e tal. Eu acho muito difícil que no Brasil surja um fenômeno como esse, por exemplo: https://ubora.wordpress.com/2013/08/27/e-essa-pretada-toda-de-preto/ que não se baseia apenas em marcas, mas numa estética bem definida. A exclusividade aqui, genericamente falando, está bem mais ligada ao valor que foi pago na peça do quê em características da peça (Por ser diferente, por ser difícil de se encontrar etc). As próprias marcas brasileiras não costumam ter uma identidade diferenciada, e acredito que o motivo seja uma mistura da falta de público/interesse do público e falta de capacidade/vontade em produzir material interessante.

      • Na minha opinião o que falta são pessoas aqui no Brasil (negro/as ou não) mais sintonizadas e interessadas em teorizar a respeito da produção/criação da moda. Sou otimista e acho que é possível pensar uma grife com características nacionais e negras desde que ela se pense internacionalmente, ou seja, incorpore valores e estéticas locais mas ao mesmo tempo mantenha-se sintonizada com o que é produzido no mercado global de moda. Exemplos disso são as grifes não americanas e européias que conseguiram entrar no mercado internacional de roupas como a japonesa Uniqulo. Outro exemplo de sucesso vem diretamente do Brasil: as Havaianas, que até bem pouco tempo atrás era chinelo de dedo de pobre e hoje custa uma fortuna (para um chinelo de dedo) tanto aqui como no exterior. Mas para que um fenômeno como o das Havaianas se repita é necessário que os estilistas e suas grifes façam um trabalho de pesquisa mais refinado e profundo buscando o que há genuinamente brasileiro e/ou negro por essas bandas. No meio negro, cito apenas dois universos que poderiam ser utilizados como matéria de influência para coleções de roupas: a cidade de Salvador (que esbanja negritude) e o universo dos bailes nostalgia de São Paulo. Mas é preciso que apareçam profissionais de moda antenados e sagazes que produzam coisas a partir desses universos com qualidade e sem reproduzir estereótipos.

      • Cheque-mate!

        Mas os bailes nostalgia são capazes de fornecer inspirações que vão além das inspirações norte-americanas da década de 1970? Eu não consigo imaginar.

        Na parte mercadológica da coisa as soluções parecem ser mais simples, não acho que falte inspirações por aqui. Mas e as manifestações espontâneas, que saem das ruas? Dois dos últimos fenômenos dos EUA, por exemplo: Odd Future e a banca A$AP. Duas maneiras de se vestir completamente diferentes, ambas bem peculiares. A do Odd Future é menos inovadora, e dos A$AP mais. Mas nos dois casos, foram ondas que se iniciaram em um círculo de amigos. Esse círculo atinge a fama, a roupa da banca sobe pros palcos e dos palcos ela vai pros seus ouvintes, que viram adeptos do estilo e influenciam pessoas que podem até não ouvir esses grupos. Estilo que define qual o tipo de calçado e meia até chegar no boné e corte de cabelo. Algo bem completo, não só um ou outro ítem.

        Não imagino como algo desse tipo seria possível no Brasil. Primeiro porque os grupos que citei já nasceram num país onde existe mais tradição na questão do estilo, onde as pessoas tem mais informações sobre o assunto, mais produtos disponíveis e mais preocupação sobre isso. Os grupos sabem que o visual conta muito para que façam sucesso. No Brasil esse ciclo não tem nem por onde começar. Nem se ele se iniciasse já em cima de um artista famoso, que a assessoria cuida da parte visual. Nem os artistas e nem os profissionais que os assessoram tem a capacidade/informação pra isso.

  5. Jun, a estética não está relacionada com a maneira que cada pessoa se vê?

    Na maioria das vezes quando nos vestimos assimilamos personagens e culturas que nos atraem. Mas temos dificuldade em ter algo apenas como uma referência e produzimos cópias.
    Suas observações da maneira de se vestir dos adeptos do Funk acho que fala sobre isso, que também passa por uma questão de se apropriarem de roupas e grifes “cara”.

    Faltaria cada um correr mais risco? Experimentar e descobrir o que cai bem e o que não caibem em cada pessoa?

    Acho quete temoas algumas referências de experimentação por aqui, e o Mano Brow se encaixa como exemplo, a maneira dele se vestir alterou nos últimos anos.

    • André, mas aí já entra no questão pessoal. O assunto tem mais a ver com o coletivo do quê com o individual. Na postagem “Conselhos gerais”, aí sim é pra algo pessoal, cada um descobrir o quê gosta e o quê cai bem. Porém, quando falamos em estilo(s) negro(s), entramos na questão da coletividade. Uma identidade visual que caracteriza um certo grupo de pessoas. Para ser considerado uma faceta da cultura negra, é necessário que isso seja exercido por um número maior de pessoas, e que isso tenha alguma relevância (Ser documentado, ter algum destaque local ou ganhar popularidade etc).

  6. Texto que realmente fala de como nós negros estamos até hoje; em questão de cultura e moda. Vou dar minha opinião (talvez esteja errada): nós negros nos perdemos com tanta informações que acabam nos fazendo ficar confusos com relação a nossa cultura e acho que é uma grande problema nosso, pois a gente mal sabe de que lado está e quando sabemos somos na maioria das vezes rotulados a uma determinada condição ou regra que faz nós ficarmos limitados quando é sobre “E como será nosso estilo?”. A melhor arma que nós podemos ter é procurar estudar mais nossas origens, aprender e ter maldade do que nós vamos saber. Pois assim regrediremos, vamos enxergar além do nós pensamos!

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